Notas do autoflagelo
Diário de mais uns dias sem Instagram.
Vira e mexe eu apago o meu Instagram - desde que as redes sociais surgiram estabeleci com elas uma relação intensa de vício e repulsa que parece bastante com um relacionamento tóxico.
Lembro de ter dezenove ou vinte anos e estar no café do cinema Odeon esperando um ficante para ver um filminho. Eu levava caderninhos para todos os lados, para escrever, desenhar e esperar. O caderninho era uma ferramenta importante de controle do tempo, assim como o cigarro, eu era um espécime raro de carioca pontual e esperar era algo comum na minha vida. Nesse dia eu estava ali desenhando, quando aquele menino geralmente blasé e distante emocionalmente chegou estranhamente empolgado e me explicou o que era ORKUT, e que era esse site com ares de exclusividade onde você só entrava através de convite, e cada participante tinha convites limitados.
Conforme ele falava das comunidades, das avaliações que os outros podiam fazer sobre vocês através de emojis de gelinho ou coração e finalmente do testimonial - uma espécie de declaração pública de afeto onde alguém podia te elogiar e aquilo ficava escrito em pedra na sua página pessoal eu fui ficando totalmente horrorizada. Lembro de ter perguntando genuinamente “porque alguém ia querer isso?” e minha pergunta foi motivada por espanto genuíno e também porque o rapaz em questão estava insinuando que apesar da nossa relação, ele estava em dúvida se me convidava ou não para esse paraíso digital. Já naquela época eu era bastante reativa a esse tipo de comportamento manipulador masculino e decidi por ele: não me mande, não me convide, definitivamente não é algo que quero para mim.

O cuspe voou longe e caiu na minha cara quando a minha melhor amiga à época conseguiu entrar na tal rede e lá estava eu explorando aquele universo que me pareceu inofensivo. Tive comunidades enormes como a Subúrbio carioca e Trago seu amor em três dias, fiz amigos, tive paqueras e me diverti. Naquela época eu escrevia em blogs individuais e coletivos, conversava com amigos no MSN e tinha uma visão realmente utópica a respeito de redes sociais e da internet como um bem democrático. O conhecimento estava disponível na palma da minha mão, eu que nunca tive grandes acessos a equipamentos culturais, não estudei em escolas famosas e de elite e tinha muita sede se saber o mundo. Também era uma maneira de acessar pessoas diferentes fora do meu universo e aquilo parecia simplesmente maravilhoso.
Bom, deu no que deu.
O algoritmo hoje é movido a ódio e publicidade, mais gente idiota e violenta do que gente interessante te acessa e é impossível estar no ambiente online sem passar raiva.
Fico tentando lembrar o que tanto eu fazia com o meu tempo livre antes de existir o ato de scrollar e frequentemente me pego me odiando por estar imersa nessa tarefa infinita, com a sensação de que se não estiver lá estarei perdendo algo, mas a verdade é que nunca estou.
Nesse momento estou sem Instagram no meu celular, abandonei o Twitter / X pouco antes do advento Elon Musk, e eventualmente vou no Threads passar raiva, mas pretendo apagar em breve também. Continuo sabendo todos os memes, as notícias horríveis sobre feminicídio e estupro, tudo sobre o BBB, sobre a guerra no Irã, sobre a crise do Banco Master e os vazamentos constrangedores dos relacionamentos amorosos do Daniel Vorcaro. Também acho maravilhoso não me deparar com stories de gente que não conheço ou não convivo mais.
Duvido que o cérebro humano seja eficiente ou preparado para lidar com tanta gente e se relacionar com uma ruma desconhecida e que não para de crescer.
Infelizmente meus delírios de inteligência, leitura, produtividade no trabalho e conexão com as pessoas não se concretizaram e apesar de me sentir menos brainroitada continuo me autoflagelando por não ter me transformado em um ser perfeito, funcional e infalível por não ter o ícone do viciante Instagram no meu celular.
E como um relacionamento tóxico eu sinto falta. De receber memes horríveis do meu marido (ele tem me mostrado no próprio celular dele), insights inteligentes com algumas leitoras e leitores que me acionam inbox, de algumas tretas. Ontem mesmo fiquei olhando fotos da minha primeira corrida de trilha e pensando: que fotos boas, vão ficar aqui presas no meu celular e minhas amigas que correm não vão ver essa maravilhosa altimetria, esse suor no meu rosto.
Pois é. Não perderão nada. Nem eu não postando, nem elas não vendo.
O problema é que realmente gosto de gente e qualquer coisa para mim é gancho para uma conversa. Sinto a necessidade de uma expressão pública, mas ao mesmo tempo sou reservada com a minha vida, tenho um círculo pequeno e fechado e não tenho necessidade de validação alheia ou de justificar a minha existência através disso. É uma equação difícil de ser resolvida, pois as redes sociais são desenhadas para transmitir a falsa sensação de que você não existe se não está ali, produzindo um medo muito humano de ser esquecida como se a vida real fosse menos real que um post, ou uma sequência de stories ou reels. Se eu não puder falar em voz alta o que eu penso, eu realmente acho isso, acredito nisso, sinto isso?
Por enquanto sigo tentando um equilíbrio entre essa expressão pública - através da escrita e de um manejo mais controlado das minhas interações públicas em Redes Sociais. Recentemente estive em Belém do Pará e decidi não postar nada enquanto estivesse lá e não pegar o celular enquanto estivesse interagindo com outros seres humanos, na reescritura de um novo código de conduta para mim mesma.
Penso muito nisso, principalmente sobre a atenção ao vivo, que está totalmente deteriorada. Chegamos num ponto que mesmo diante de outro ser humano, de outra pessoa, ser mortal e finito único que um dia vai apodrecer embaixo da terra depois de sua limitada passagem pela vida, um milagre em forma de ossos, sangue, vísceras e mucosas que foram geradas dentro de um útero e plasmadas com outros sangues e corpos e preferir pegar um celular e ver um conteúdo auto derivativo sobre algo que seu cérebro vai apagar em segundos.
Isso me deprime. Por isso continuo tentando uma outra maneira que, confesso, ainda não encontrei.
E preciso dizer que falhei e falho miseravelmente quase todos os dias.
Só posso prometer a mim mesma que continuarei tentando. Tentando sustentar o silêncio, o tédio, o desconforto de estar diante de mim com as vozes incontroláveis da minha cabeça, diante do outro com suas contradições, maravilhas e chatices incontornáveis e diante do mundo - sem ser absorvida por ele e também sem recusá-lo.
::
Uma das tentativas de estar menos online é fazer listas privadas do que eu estou lendo e assistindo. Faço um pequeno comentário no meu próprio celular e sem a necessidade de postar me sinto mais soltinha, dando veredictos levianos, mau humorados e empolgados. Tem sido muito divertido reler o que eu mesma acho sobre o que acabei de consumir. Uso expressões como “pataquada” e isso me faz genuinamente feliz.
Como não quero que ninguém leia nenhum embuste do hype, faço aqui a recomendação dos meus mais mais de 2026 até agora.
1 - O céu para os bastardos da Lilia Guerra
2 - O adversário - Emanuel Carrère
3 - Se vivêssemos em um lugar normal - Juan Pablo Villalobos
4 - A árvore mais sozinha do mundo - Mariana Salomão Carrara
De filmes
1 - São Paulo SA - Sérgio Person - aproveitem a cópia restaurada que está em cartaz em vários cinemas do Brasil.
2 - La Notte - Antonioni - sim, tem tanto filme ruim sendo lançado que só fico em paz vendo e revendo filme velho.
3 - O beijo da mulher aranha - Hector Babenco - tô me preparando psicologicamente para ver o remake pq o original é simplesmente flawless. E para as malucas por refs a perseguição final do Molina (William Hurt) ecoa na cena linda de perseguição do personagem Bob (Gabriel Leone) em O Agente Secreto do Kleber Mendonça.
4 - Heated Rivarly temporada 1 - putaria e romancinho pra deixar o cérebro lisinho.
::
Fazendo Drama é uma newsletter bissexta.
Não esperem nada de mim além de receberem um texto que realmente quis ser escrito.
Até a próxima,
Renata C.
P.S: eu nunca reviso.



Mesma sensação aqui. Ontem eu tomei uma atitude meio doida e deixei de seguir todas as pessoas que eu não conheço, a imprensa, os famosos, exceto os contatos que me interessam profissionalmente. Embora eu ame a família Gil, o que me acrescenta ver as dancinhas da Bela e da Flor? Ano de política, não quero passar raiva. Estou lendo mais e tentando recuperar minha capacidade de concentração. Mas é um dilema.
Texto ótimo! Há tempos penso que precisávamos de grupos de apoio para lidar com os transtornos gerados pelas redes sociais. Também perco uma energia considerável administrando o vício (instalei bloqueador no celular pra limitar o uso, coloco post-it no computador etc) e sinto as relações pessoais se deteriorando, o tempo junto em silêncio acabou. Mas é como uma garota (de um vídeo que vi no Instagram) disse: “nós precisamos sair todos juntos do Instagram”.