Vivendo o dia das mães
e driblando o cansaço com vida
Os dias das mães tem sido leves nos últimos anos. Almoço, música, troca de presentes. Aquele esforço divertido de agradecer, compensar e celebrar em um único almoço a enormidade emocional, política, social e econômica da palavra mãe. Tudo que a palavra arrasta. Tudo que a palavra retém.
Tenho me dado ao luxo de não pensar. De apenas comer, fazer piadas, me envolver no prazer de estar ao redor das pessoas que amo. E assim fizemos esse ano, mais uma vez. Fiz farofa de castanhas. Comi moqueca que minha mãe fez. Assistimos o Som Brasil da Anitta enquanto minha sogra e meu padrasto comentavam o quanto a cantora mudou de estilo. Bebemos vinho, chamamos Deus de pai ausente pelo que fez Jesus passar, falei das Yabás, de Nanã e de Logunedé com a minha irmã. Liz ficou no celular, emburrada, adolescente, com dor de garganta. Lucas lavou a louça. Expliquei para todos quem eram Milo J. e Duquesa, botei um Tiny Desk no Youtube.
Algumas amigas passaram com suas sogras, ou sozinhas, ou com os seus pais. Chegamos nessa idade onde algumas filhas sofrem o desterro absoluto que é não ter mais uma mãe. Falamos no whatsapp, nos agradecemos por estarmos juntas. Uma delas printa uma mensagem revoltada com uma matéria sobre “Mãe de Pet”. Perguntou quem ia se revoltar dessa vez. Brinco que essa polêmica engaja todo ano. Quem quiser se auto intitular mãe de animais que se intitule. São misteriosos os desígnios do coração e toda gente é muita gente - diversa, com buracos que nem sei.
Penso na rapper Jullia Costa que abriu uma Ong para apoiar mães solteiras em vulnerabilidade social, penso das mulheres ambulantes do Coletivo Elas por elas do Morro da Providência que organizam creches coletivas para mães trabalharem durante o carnaval, jogos de futebol e mega eventos musicais na praia de Copacabana. Penso que o jornal devia se ocupar mais de mulheres que cuidam de outras mulheres.
É o primeiro Dia das mães sem a minha avó Zilda e você, se quiser, pode saber um pouco mais dela nesse podcast e nesse Temporal de Amor. Minha mãe não falou muito dela, pela primeira vez não falou muito dela, ficou se atarefando e depois foi para o teatro, que ela gosta é do agora.
Voltei para casa parabenizando online as mães ao meu redor, postando uma foto nos stories que tiramos depois do almoço, já tradiconal: minha mãe, eu, minha irmã e minha filha, que largou o celular para fazer parte pelo menos desse pedacinho de dia.
De pancinha cheia, continuo exausta de falar sobre o dia das mães, sobre as implicações impossíveis desse nominho de três letras, permaneço cansada de tanto que falei online, escrevi livro, teorizei nos últimos anos. Mas continuar é o único verbo que as mães conjugam.
Até o ano que vem.
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Fazendo Drama é uma newsletter bissexta.
Não esperem nada de mim além de receberem um texto que realmente quis ser escrito.
Até a próxima,
Renata C.
P.S: eu nunca reviso.





Gostoso de ler; a vida como ela é.
Muito bonito e verdadeiro!